
Os meus olhos são de cor indeterminada.
Em dias de chuva e frio são de cor castanho escuro.
Em dias de frio e sol são castanho claro.
Na primavera, em dias de sol solarengo são verde-acastanhados.
Nos dias de verão chuvosos são verdes escuros. Mas quando o sol espreita tornam-se verde claro.
Mas quando choro, eles ficam verde água, independentemente da estação do ano, ou se faz chuva ou sol! E era esta a cor que predominava nos meus olhos quando, ontem à noite, cheguei ao Porto. Foi o resultado de uma tarde angustiante, de uma tarde de "cair na realidade"!
Passei o fim-de-semana mesmo bem com os meus primos, tios, pais, avós...
Mas ontem à tarde, a hora da chegada do compasso...foi horrível.
Como uma chapada de realidade!
Não estavas la para segurar a cruz enquanto a beijávamos. E ninguém teve coragem de ocupar o teu lugar. Teve de ser um dos acólitos a desempenhar um papel que antes era teu.
E algo tão simples como ser outra pessoa a passar a cruz despontou em mim um remoinho de emoções com as quais não soube lidar.
Não aguentei mais estar naquela sala, olhar para a minha avó e para a minha tia com as lágrimas nos olhos...
Tive de sair de rompante antes que as lágrimas me descessem pela cara. Fechei-me no quarto e chorei o que tinha a chorar.
Mas chorar não era suficiente e não queria que ninguém me visse assim.
Saí de casa, arranquei uma flor do jardim e pus-me a caminho.
De onde? Acho que nem eu sabia muito bem.
Andei, andei e andei!
Quando dei conta estava à beira do cemitério.
Entrei e sentei-me junto da tua campa. E disse tudo o que te tinha a dizer.
Estava furiosa. Ainda não consigo acreditar e já la vai quase um ano. E só nestas alturas é que me confronto com esta realidade.
E mais uma vez chorei...chorei muito.
Estavam dois senhores com uma menina (devia ter quatro anos) no cemitério. A menina para ao meu lado e começa a perguntar ao pai: "A menina está a ver? A menina está a ver?".
Só queria que ela se calasse. A voz dela estava a irritar-me.
O pai respondeu-lhe que sim e disse-lhe para vir para a beira dele.
A miúda, que de obediente não tinha nada, tocou-me no braço e disse-me:
-"Não fiques assim. O papá diz que eles continuam ao nosso lado. Nós é que não os vemos!"
Eu fiquei parva a olhar para ela. Nem tive reacção.
O pai chamou-a, novamente, e foram-se embora.
Fiquei sozinha no cemitério. Sem perceber muito bem o que tinha acontecido.
A flor continuava na minha mão e o meu pensamento tinha estagnado. Não conseguia pensar. Não te consegui dizer mais nada. Coloquei a flor junto à tua fotografia, levantei-me e fui lavar a cara, a uma torneira que lá existe.
Fui-me embora, acho que estava em transe.
As lágrimas já não me corriam e eu andava por andar. Como se não soubesse para onde devia ir.
Uma mota passou por mim, era o meu irmão. Deve-me ter visto sair de casa meia atordoada e imaginou que tivesse ido visitar o nosso avô. Ou então, foi coincidência!
Parou a mota e eu subi
Não dissemos nada um ao outro e ele não me perguntou nada (e ainda bem).
Ir à aldeia não me faz nada bem. É o local onde não posso fugir à verdade: a de que já não estás cá!
E doí, doí muito!
E já falo disto à muito tempo! Mas está difícil de superar!
Pintas*